Quando nasci suponho que alguém tenha dado a fatídica noticia: ”é menina!”, e ai todo o estigma começou. Determinaram não só meu sexo, mas meu norte: Meu nome deveria ser um desses, o cabelo tinha de ser comprido, minhas cores primarias ficariam entre o amarelo e o vermelho. .
Se ser não é tarefa fácil, ser menina é ainda menos.
“Arruma o vestido, senta direito, penteia os cabelos.” “Por quê?” “nenhum garoto vai querer namorar você desse jeito.” Agora pra ser menina eu precisava ser avaliada e aceita por algum outro alguém? Porque eu não estava sendo a minha própria avaliadora? Precisa ter selo de qualidade para ser? O que eu era já não bastava, talvez precisasse ser de novo, ser alguma coisa mais, sabe, feminina. E eu não fazia ideia do que isso significava. Eu já tinha o gênero, correto? E eu me sentia de acordo com ele, então, o que me faltava?
Mas se ser menina não é fácil, ser mulher é uma tarefa que deveria levar milênios para ser aperfeiçoada. É aprender a não gostar do corpo, do rosto sem maquiagem e da própria natureza. Menstruação é sujo, ter pelos é nojento, não parecer uma boneca plastificada em publico é digno de recriminação e escarnio.
Ai o tempo passa, a gente adere a esses ensinamentos que crescem por todos os lados, como erva daninha. Então toda relação se torna voltada para si. Porque, afinal, deve existir uma aprovação constante para me validar como mulher no mundo. Devo abrir mão de varias partes da minha natureza, porque, infelizmente, a natureza feminina não é vista como natural.
Livrai-nos, nós mesmas, dessa paranoia. Amém.
Venha ser mulher,
quem queira,
como quiser
e o resto do mundo que se acostume!
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Amores serão sempre amáveis, eu prometo.
Lutar por você é uma batalha perdida. Lutar com você
também. Você, delicado peso morto se
fazendo refém do mundo. Desistindo antes mesmo de algo o desafiar. Virando as costas para o futuro, achando que
o cigarro afastará toda a dor dos anos e da solidão eminente que é o destino de
todos nós. Não há cigarro, nem foda, nem amor, nem bebedeira que cure a falta
de paz, a insegurança e o horror que há na vida.
Mesmo assim, você tão menino , tão crente que o mundo vai
esperar mais um pouquinho até seu cigarro acabar.. O mundo já engoliu você, querido.
Te deixei porque não queria afundar, parada, junto.
Desonesto seria se eu só viesse com palavras duras, porque
se parti cem vezes, voltei ao mínimo duzentas querendo um pouco de ti. E como
sempre, pareço pássaro de passagem pros teus olhos manchados (e doídos). Essa aceitação do mundo ruim, essa sua
certeza eminente que tudo que é não poderia não ser e que não há nada o que
fazer. Que eu posso ir sempre que quiser, e talvez torcer para não entrar mais
ninguém no seu caminho até que eu volte.. você não causa resistência nenhuma,
tudo que eu faço é nadar contra a corrente.
Você é consumido e deixa o fogo queimar, eu acendo mais a
chama ou fujo pra bem longe, atravesso e desatravesso uma ponte, corro muito, corto os pulsos e choro forte
antes de levantar e enfrentar tudo e todos, acreditando que o pior da vida é me
fazer esperar.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Perdi completamente o encanto para os teus olhos, e agora me encontro, obsoleta, boneca encostada no canto do quarto. e toda maquiagem outra hora linda parece deslocada e vulgar. Triste.
O tempo vital do sentimento alheio pode ser tão curto, o afeto dividido , o momento íntimo, completamente efêmero. E não há modo de se agarrar a essas lembranças cada vez menos lúcidas.
É impossível sair andando ilesa quando se pensava ser a menina dos olhos do amante amado. O passo falha, a perna bambea, o sorriso melancólico se mantém gravado como tatuagem na alma.
Te vejo na esquina , você ainda fuma? Sentir mais uma vez o gosto da sua boca cheia de nicotina
Rindo pra mim
Antes que ela se cale, e eu fique só com o silêncio da partida estampado no meu vestido
Aquele que você gostava de me ver vestindo .
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Russo bossa-nossa.
Saí de casa. Comecei a trabalhar. Me tornei garçonete-universitária-independente-desesperada. Aprendi muita coisa e conheci muita gente, comecei a notar o mundo de uma forma completamente diferente. E linda!
As vezes no meio do caminho se encontra gente que nos tira daquela introspecção toda, que nos faz ficar pensando. Até a forma como a pessoa abaixa a cabeça para fazer as contas no fim do expediente faz com que você acabe de jantar cheia de questões. Maravilhosas.
Então, no meio de toda a agitação,existia aquele homem-menino com cara de russo e sorriso bossa-nova, com seus cigarros e algumas questões que eram próximas das minhas. Toda uma energia intensa e radiante guardada no semblante sereno. O caos represado pela paz.
Eu queria aquela coisa, só não sabia o que era.
Eu queria falar sobre poesia, sobre a forma que o sol bate nos meus ombros alguns dias e me enche de certeza. Queria falar dessa loucura que é existir no meio do mundo. Queria isso com você, porque, como naquele encontro-sem-querer que a gente teve num bar, eu já tinha te revelado todo o segredo: sua essência é bonita,
encanta.
Marca.
Você é aquele que eu gostaria de mandar noticias algumas vezes, e contar daquela musica do Raul que encheu minha alma, porque quero que ela encha a sua também. Acredito nessa beleza que deveria ser decretada fundamental nas pessoas. Essa coisa que faz o mundo ser um lugar mais amável. Isso que eu vi em você.
Não se esconda, vá pra rua! Brilhe lá do outro lado do mundo com esse seu semblante de quem já entendeu do que se trata antes mesmo dos outros notarem a questão. Não se esqueça de mim, e quando der vontade, vem me contar de alguma beleza nova que você encontrou no caminho. porque eu tenho certeza que ainda serão muitas.
Rosin, pelo seu aniversário, pela sua vida, pela sua viagem e pelo futuro. E também por você que me presenteou com palavras lindas no seu dia. Obrigada por ver beleza em mim.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Necessidades básicas
É preciso se amar. Através de todo o ódio que escorre nas ruas e das almas daquelas pessoas que nos cercam e abraçam algumas vezes cheias de más intenções.
É mais do que necessário aprender a desfrutar de si, de romper com o medo e com os traumas. Se o vizinho, o cachorro ou o mundo já te feriu mortalmente é essencial respirar fundo, olhar para a alma do agressor e deixar que ele , e principalmente , você, prossiga. O ódio faz com que nos movamos rápido e com um sorriso malicioso no canto do rosto, e muitas vezes é o ódio que permite que nos lutemos contra alguma coisa, no entanto ele não pode ser eterno. Como diz em Corintos, há tempo para todas as coisas, de odiar e de perdoar. Muitas vezes perdoar a si, aceitar que de alguma maneira o outro te feriu, tirar da mente toda a negatividade e a brutalidade.
Depois de muito podar é tempo de florescer.
A raiva prolongada perde sua essência de retribuição, de payback, ela apenas escorre dentro de nós, contamina.
Não acredito em boas almas e corações que não guardam mágoas, tenho fé na sabedoria de deixar passar o mal que ficou marcado na pele, de deixar a memória se perder porque existem coisas que não merecem ser lembradas. De ter atenção que o mundo não é bom, mas que pode ser bonito se a gente souber olhar e sorrir.
Não existirão muitas pessoas que te peguem pela mão, então que você se abrace, e corra, corra mesmo. Se houver vontade ou necessidade corra dos outros, fure compromissos, invente desculpas e até suma se sentir no fundo que isso será o melhor para o seu equilibro.
O mecanismo que o cotidiano nos impõe não gera paz, apenas preocupação e peso, então é mais que essencial saber o que merece ser lutado e abandonado.
Escrevo isso para mim, porque a vida não é coisa fácil nem nunca foi mil gentilezas. Mas houve gente que me pegou no colo, tiveram noites que eu me segurei sozinha, e outras que eu tive certeza que não conseguiria amanhecer.
Entretanto a manhã chegou, essas pessoas já foram para outros lados, e eu não me reconheço mais, e esse é o primeiro passo para eu ser quem eu quero, não somente uma consequência do que o mundo causou pra mim.
É muito cedo para se conformar. E sempre será.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Estática negação
Eu queria te dizer que talvez exista muita coisa pior no mundo, mas agora tanto faz.
Já disse antes que cheguei ao limite, eu sei, parte de mim espera que esse não seja o limite absoluto da vida , mas, eu voltei .
Voltei ao lugar escuro que já me encontrei varias vezes, e essas mesmas paredes encardidas não me possibilitam entender o que há por de trás do concreto que me faça querer sair. Penso nos amores passados e nos vividos, e nada me comove. Penso nas juras daquele menino um tanto mais velho que eu, e mesmo assim permaneço imóvel. Me recuso a encontrá-lo pelo simples prazer-doloroso de permanecer estática.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Desapego
Eu não sei lidar com encerramentos,simplesmente
não enxergo os avisos tão óbvios do fim. E insisto. Insisto e quando noto já
nem sinto. O fim vai crescendo em mim sem que eu veja. Permaneço e persevero,
choro o que deveria e o que não.
Esforço desperdiçado.
Derramo-me por vezes na coisa insistida que me falta a malícia de perceber que já morreu em nós.
O silêncio não me diz nada pois sou uma grande saudosista. Sua meia dúzia de sorriso despreocupados, que eu não vejo faz quase ano, não me fazem desacreditar ou notar a distância que existia do antigamente até o momento agora. A lembrança se encarrega de suprir todo o mal entendido , o verbo não dito, a maldade que corre pelas nossas veias tão mortais.
Lembrança é antídoto de todo o presente destruído.
Lembrança é cegueira precoce.
Lembrança é essa foto jogada no fundo da gaveta.
Estática.
Que não emolduro nem jogo fora.
Enfim
um copo quebra, um compromisso se desmarca,
o cigarro falta na minha boca carente de afeto.
desapego.
Deixo correr livre e vou na direção contrária, não há encontro nem há chegada.
não existe mal na partida quando se vive bem o caminho e não retém lembranças de quase nada.
Esforço desperdiçado.
Derramo-me por vezes na coisa insistida que me falta a malícia de perceber que já morreu em nós.
O silêncio não me diz nada pois sou uma grande saudosista. Sua meia dúzia de sorriso despreocupados, que eu não vejo faz quase ano, não me fazem desacreditar ou notar a distância que existia do antigamente até o momento agora. A lembrança se encarrega de suprir todo o mal entendido , o verbo não dito, a maldade que corre pelas nossas veias tão mortais.
Lembrança é antídoto de todo o presente destruído.
Lembrança é cegueira precoce.
Lembrança é essa foto jogada no fundo da gaveta.
Estática.
Que não emolduro nem jogo fora.
Enfim
um copo quebra, um compromisso se desmarca,
o cigarro falta na minha boca carente de afeto.
desapego.
Deixo correr livre e vou na direção contrária, não há encontro nem há chegada.
não existe mal na partida quando se vive bem o caminho e não retém lembranças de quase nada.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
errada(o)
Seria tudo errado ou toda errada? Talvez pra variar não tenha sido tanto fez. E de tanta coisa que acontece quando os nossos olhos se perdem em meio a tanta luz que brilha no meio da cidade em noite de festa, tudo se fez. E nada tanto fez.
E o não virou palavra de ordem aos ouvidos mimados que não conseguem respeitar limites ou imposições. E o descaso que talvez fosse curiosidade ou ate mesmo bom senso que falta em boa parte de nos chegou.
E ligou na segunda feira que é dia de branco e dia de varrer o caos do fim de semana para de baixo do tapete. Dia de levantar cedo e sorrir pro mundo que ri da gente e pegar a condução triste e lotada de gente quase sem alma e andar aquele tanto e ver o mar imundo que cerca a terra e ficar a deriva ate chegar a algum lugar que de fato não é lugar nenhum. E o mundo é isso
A surpresa!
E esses telefonemas que rompem a mente
E eu minto
E ele mente
E talvez ninguém esteja errado
Porque a vida e essa, e talvez tudo seja mesmo errado
Mas
Você
Tenta.
E o não virou palavra de ordem aos ouvidos mimados que não conseguem respeitar limites ou imposições. E o descaso que talvez fosse curiosidade ou ate mesmo bom senso que falta em boa parte de nos chegou.
E ligou na segunda feira que é dia de branco e dia de varrer o caos do fim de semana para de baixo do tapete. Dia de levantar cedo e sorrir pro mundo que ri da gente e pegar a condução triste e lotada de gente quase sem alma e andar aquele tanto e ver o mar imundo que cerca a terra e ficar a deriva ate chegar a algum lugar que de fato não é lugar nenhum. E o mundo é isso
A surpresa!
E esses telefonemas que rompem a mente
E eu minto
E ele mente
E talvez ninguém esteja errado
Porque a vida e essa, e talvez tudo seja mesmo errado
Mas
Você
Tenta.
Bruce e nós
Vamos ter um réptil.
uma iguana verde e com olhos mortos
que irá fitar nosso sexo sem vida.
que irá fitar nosso sexo sem vida.
Você levantando após o fim, se dirigindo ao banheiro.
Enquanto eu espero, exausta
Enquanto eu espero, exausta
e encaro Bruce (esse seria seu nome)
A iguana Bruce, eterna companheira de indiferença
Li uma vez que o melhor que um réptil pode fazer é ignorar.
O artigo falava sobre cobras, mas acho que também se aplica
ambos são animais de sangue frio.
ambos são animais de sangue frio.
Não sei se me referi a Bruce ou a você;
ou a mim.
Talvez do meu útero nasçam pequenos répteis com seus olhos cínicos
e meu sorriso dissimulado.
Filhos do nosso amor.
Bruce será o membro mais amável da família.
(ele ao menos se mantém indiferente.)
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