terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ele tem uma angústia só nossa
angústia assim sem tragédia.
como coisa cotidiana.

Se movimentando lentamente esperando o troco do ônibus,
pelos corredores da faculdade,
no riso dos conhecidos tão obviamente desinteressantes.

Coisa assim que nos leva por um caminho que queima.

Talvez seja alguma maldição que nos foi jogada
durante a infância,
ou ainda dentro do útero.

Prefiro achar graça,
quem poderá dizer que não é dádiva?


Seria bonito acreditar que fomos marcados pelos anjos.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Segredo

"Eu não estou transando só com o seu corpo"
"Você é linda"
"Me desculpe pelos homens"

Um ano atrás eu sentiria muita raiva. Talvez tudo o que eu vivi pra trás estivesse contaminado com uma raiva espessa que impossibilitava a respiração. Eu teria virado bicho, chorado um bocado, e afastado a vulnerabilidade que me é bastante inerente com todo o tipo de brutalidade que conheci no percurso. 

Medo.

Medo de me despir e fazer nua, não ser só corpo. De prender os cabelos e mostrar meu pescoço despreparado para um homem que realmente saiba da minha insônia e escrita. Aflição de não ter de falar alto e me impor e bater pé para me fazer presente e viva. De não ter que chorar e sofrer e me sentir menor para poder ser acolhida.

Medo de ter isso
Medo de não ter.

Eu teria mentido e dissimulado mais, não é que eu seja egocêntrica, eu só não queria que você partisse tão rápido, é só um desejo antigo por companheirismo, é só o medo de te fazer triste com tanta pedra que existiu no meu caminho. Eu agora ando tão desleixada, deixando pontas soltas: virando de costas no meio de exposições, afastando meu rosto das suas mãos, ficando tão cansada após o sexo.

E você todo pedidos-de-desculpas-e-sorrisos. Me dando tempo.  

Esse que eu nunca me dei enquanto tento me acostumar a sentir prazer. Me jogando, até pouco, ao acaso porque parar de ter medo da vida é meu objetivo principal e eterno. Talvez você finja não ver para me poupar a vergonha de esconder tantos segredos, de pensar tanto na dor durante os dias. 

Seu abraço cuidadoso que me inclina a contar sobre o caos turbulento que reside em mim, mas, e se você não gostar dos meus animais? Se eu só servir se for puro jardim? E, se, principalmente, você não gostar de mulheres tristes ou a falta de um final feliz que ainda não pousou em mim?

Além dos fatos, o que eu queria te contar é que eu vou chorar sim algumas manhãs sem motivo algum,  vou ficar sem dormir boa parte das noites por simples medo de sonhar. Falarei bastante dos meus pesadelos até ter coragem de descrever em voz alta e para alguém o que de tão mau não sai do meu subconsciente. Existirão dias que nem o mais belo sorriso me fará levantar da cama. 

Mas isso serão só alguns dias. Juro.

Espero que você não se esqueça de todos os meus sonhos de orfanatos, crianças e asa-delta ; Da minha vontade de fazer algo belo pela minha existência e pelo mundo. Eu desejo com força que você se lembre sempre do quanto eu me embolo de tão animada com algum poema, série ou imagem. Como eu amo tomar um café preto de manhã e me sentir viva. Como acho incrível dizer alguma coisa boba que te faça soltar um riso tranquilo. Eu poderia passar horas fazendo carinho porque ser gentil parece a salvação para um mundo tão cheio de hostilidade.

E, mais do que tudo, o que eu preciso é que você me aceite por completo,
talvez eu é que precise me aceitar por completo.

Não sou só jardim.
Não desejei ser caos. 
Nunca sonhei com todo esse medo de mãos, mas ele existe em mim. Machuca mostrar: a frustração bate toda vez que eu afasto meu rosto quando você tenta tocar meus cabelos, e eu penso em te contar tantos fatos e tantas dores, e eu só consigo sorrir e tentar mais forte esquecer de todo o passado porque eu quero algum presente bonito. 

Entenda corretamente, por favor: Bonito pra mim.

Preciso de uma vida bonita, e eu estava bem perto disso até começar a te ouvir com atenção, perceber que não se tratava só de politica e feminismo, você ligava para o ser ao seu lado. Talvez nesse momento eu tenha parado de te enxergar como a quase dezena de caras que eu conheci nesse ultimo ano.

Não tem correspondência com ser especial, tudo se baseia apenas no espaço que você parece me dar para ser, e eu não quero ser minha integralidade com você por perto, porque perder a oportunidade de se fazer nua e mostrar-se talvez seja melhor do que perder o outro que te possibilita essa ideia de liberdade inalcançável.

De qualquer modo, conheci esse homem de olhar claro-sereno que com seus pedidos de desculpa pela humanidade fez com que eu voltasse a olhar um pouco mais pra mim. Obrigada. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

canto

Querido, aprendi a voar, e que dó é notar que você detestou minhas asas tão compridas e coloridas. Eu que sempre quis fazer ninho em ti, nas rugas do canto dos seus olhos, em toda a sua imperfeição que comovia. Deveria eu ter percebido que você odeia a liberdade, tudo em ti só funciona com correntes e gaiolas.

Amor-veneno era esse seu encanto esquio que me deixava menor em mim. Com todo carinho me ensinava como eu precisava ser mais e diferente para receber o afeto diário, pagamento incompleto e miserável que era tentar viver com quem não queria um pássaro.

Arrancou minhas penas,
tirou meu abrigo
me fez comer na mão.

Que afeto era esse que eu acreditei enquanto chorava aflita? 

Voar machuca aquele que vive acorrentado. O incomodo de perder aquilo que nunca se quis ganhar, porque ter sem afeto é melhor do que não ter coisa alguma, e eu, por ter querido tanto e de impeto quase perpetuo, ou ao menos assim o sentira, agora voo. 

Não me pôde, 
não me mande.
não tente aprisionar meu canto e minhas piruetas.

Não fale alto porque eu agora só vou quando quero. 
Eu não preciso de ninho, eu sou bicho solto,
animal selvagem, 
bebendo das folhas e sentindo o calor do sol.

O belo não precisa ser belo sempre. Mas deveria.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Sobre ser mulher.

Quando nasci suponho que alguém tenha dado a fatídica noticia: ”é menina!”, e ai todo o estigma começou. Determinaram não só meu sexo, mas meu norte: Meu nome deveria ser um desses, o cabelo tinha de ser comprido, minhas cores primarias ficariam entre o amarelo e o vermelho. .

Se ser não é tarefa fácil, ser menina é ainda menos.

“Arruma o vestido, senta direito, penteia os cabelos.” “Por quê?” “nenhum garoto vai querer namorar você desse jeito.” Agora pra ser menina eu precisava ser avaliada e aceita por algum outro alguém? Porque eu não estava sendo a minha própria avaliadora? Precisa ter selo de qualidade para ser? O que eu era já não bastava, talvez precisasse ser de novo, ser alguma coisa mais, sabe, feminina. E eu não fazia ideia do que isso significava. Eu já tinha o gênero, correto? E eu me sentia de acordo com ele, então, o que me faltava?

Mas se ser menina não é fácil, ser mulher é uma tarefa que deveria levar milênios para ser aperfeiçoada. É aprender a não gostar do corpo, do rosto sem maquiagem e da própria natureza. Menstruação é sujo, ter pelos é nojento, não parecer uma boneca plastificada em publico é digno de recriminação e escarnio.

Ai o tempo passa, a gente adere a esses ensinamentos que crescem por todos os lados, como erva daninha. Então toda relação se torna voltada para si. Porque, afinal, deve existir uma aprovação constante para me validar como mulher no mundo. Devo abrir mão de varias partes da minha natureza, porque, infelizmente, a natureza feminina não é vista como natural.

Livrai-nos, nós mesmas, dessa paranoia. Amém.


Venha ser mulher,
quem queira,
como quiser
e o resto do mundo que se acostume!

Amores serão sempre amáveis, eu prometo.

Lutar por você é uma batalha perdida. Lutar com você também.  Você, delicado peso morto se fazendo refém do mundo. Desistindo antes mesmo de algo o desafiar.  Virando as costas para o futuro, achando que o cigarro afastará toda a dor dos anos e da solidão eminente que é o destino de todos nós. Não há cigarro, nem foda, nem amor, nem bebedeira que cure a falta de paz, a insegurança e o horror que há na vida.

Mesmo assim, você tão menino , tão crente que o mundo vai esperar mais um pouquinho até seu cigarro acabar.. O mundo já engoliu você, querido. Te deixei porque não queria afundar, parada, junto.

Desonesto seria se eu só viesse com palavras duras, porque se parti cem vezes, voltei ao mínimo duzentas querendo um pouco de ti. E como sempre, pareço pássaro de passagem pros teus olhos manchados (e doídos).  Essa aceitação do mundo ruim, essa sua certeza eminente que tudo que é não poderia não ser e que não há nada o que fazer. Que eu posso ir sempre que quiser, e talvez torcer para não entrar mais ninguém no seu caminho até que eu volte.. você não causa resistência nenhuma, tudo que eu faço é nadar contra a corrente.


Você é consumido e deixa o fogo queimar, eu acendo mais a chama ou fujo pra bem longe, atravesso e desatravesso uma ponte,  corro muito, corto os pulsos e choro forte antes de levantar e enfrentar tudo e todos, acreditando que o pior da vida é me fazer esperar. 


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Perdi completamente o encanto para os teus olhos, e agora me encontro, obsoleta, boneca encostada no canto do quarto. e toda maquiagem outra hora linda parece deslocada e vulgar. Triste. 

O tempo vital do sentimento alheio pode ser tão curto, o afeto dividido , o momento íntimo, completamente efêmero. E não há modo de se agarrar a essas lembranças cada vez menos lúcidas. 

É impossível sair andando ilesa quando se pensava ser a menina dos olhos do amante amado. O passo falha, a perna bambea, o sorriso melancólico se mantém gravado como tatuagem na alma. 

Te vejo na esquina , você ainda fuma? Sentir mais uma vez o gosto da sua boca cheia de nicotina 

Rindo pra mim 

Antes que ela se cale, e eu fique só com o silêncio da partida estampado no meu vestido

Aquele que você gostava de me ver vestindo .

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Russo bossa-nossa.

Saí de casa. Comecei a trabalhar. Me tornei garçonete-universitária-independente-desesperada. Aprendi muita coisa e conheci muita gente, comecei a notar o mundo de uma forma completamente diferente. E linda!

As vezes no meio do caminho se encontra gente que nos tira daquela introspecção toda, que nos faz ficar pensando. Até a forma como a pessoa abaixa a cabeça para fazer as contas no fim do expediente faz com que você acabe de jantar cheia de questões. Maravilhosas. 

Então, no meio de toda a agitação,existia aquele homem-menino com cara de russo e sorriso bossa-nova, com seus cigarros e algumas questões que eram próximas das minhas. Toda uma energia intensa e radiante guardada no semblante sereno. O caos represado pela paz.

Eu queria aquela coisa, só não sabia o que era. 

Eu queria falar sobre poesia, sobre a forma que o sol bate nos meus ombros alguns dias e me enche de certeza. Queria falar dessa loucura que é existir no meio do mundo. Queria isso com você, porque, como naquele encontro-sem-querer que a gente teve num bar, eu já tinha te revelado todo o segredo: sua essência é bonita, 

encanta. 

Marca. 

Você é aquele que eu gostaria de mandar noticias algumas vezes, e contar daquela musica do Raul que encheu minha alma, porque quero que ela encha a sua também. Acredito nessa beleza que deveria ser decretada fundamental nas pessoas. Essa coisa que faz o mundo ser um lugar mais amável. Isso que eu vi em você. 

Não se esconda, vá pra rua! Brilhe lá do outro lado do mundo com esse seu semblante de quem já entendeu do que se trata antes mesmo dos outros notarem a questão. Não se esqueça de mim, e quando der vontade, vem me contar de alguma beleza nova que você encontrou no caminho. porque eu tenho certeza que ainda serão muitas. 


Rosin, pelo seu aniversário, pela sua vida, pela sua viagem e pelo futuro. E também por você que me presenteou com palavras lindas no seu dia. Obrigada por ver beleza em mim.